Crítica – A Série Divergente: Convergente

A Série Divergente - Convergente continua pecando em seus aspectos técnicos, mas ao menos tem um roteiro eficiente ao garantir dinamismo o suficiente para que o espectador compre a ideia do filme, além de ter uma história fechada mesmo fazendo parte de metade de um todo. Deixa o público instigado para saber o que vêm a seguir no último longa que será lançado em 2017. 7 min


[SEM SPOILERS]

Sinopse: Tris (Shailene Woodley), Quatro (Theo James), Caleb (Ansel Elgort), Christina (Zoe Kravitz) e Peter (Miles Teller) fogem de Chicago em busca daqueles responsáveis pela mensagem descoberta no final do filme anterior. O caminho irá levá-los a uma agência científica e militar chamada de Departamento de Auxílio Genético (DAG) e comandada por David (Jeff Daniels). Enquanto isso, em Chicago, o vácuo de poder leva ao confronto entre o grupo liderado por Evelyn (Naomi Watts) e aquele liderado por Johanna (Octavia Spencer).


Desde que a série Harry Potter (2001-2011) inventou a estratégia de dividir o último livro a ser adaptado em dois filmes, todas as outras franquias de longas baseados em livros adotaram a mesma ideia. Jogos Vorazes (2012-2015) e Crepúsculo (2008-2012) são dois exemplos. Em todos os casos ficava aquela sensação de que era uma estratégia dos estúdios para arrecadar duas vezes mais sob um mesmo material. O penúltimo filme sempre ficava incompleto, com um ritmo lento, não deixando o espectador saciado, feliz, realizado com a catarse apresentada, que nesses casos inexistiu. Este Convergente consegue fazer justamente o oposto. O longa tem começo, meio e fim, arcos definidos e perceptíveis e uma história completa. Obviamente deixa pontas soltas para o capítulo final, deixando o espectador instigado e curioso, mas faz com que o mesmo espectador saia da sala de cinema com o sentimento de dever cumprido.    


O diretor alemão Robert Schwentke também foi responsável pelo longa anterior, Insurgente (2015), e anteriormente por longas bons como Plano de Vôo (2005) e ruins como R.I.P.D. – Agentes do Além (2013), ou seja, um currículo instável. Mesmo em Insurgente o diretor não realizou grandes mudanças em relação à Divergente (2014), manteve o ritmo, a estética visual, os atores e a dinâmica entre eles. E o trabalho de Robert continua igual em Convergente. O grande mérito do diretor é conseguir conferir um alto nível de dinamismo a um filme que, teoricamente, aborda metade de um livro, sem alterar a duração do longa. Dessa maneira a ação permeia o filme de ponta a ponta, com necessários momentos de respiro e reflexão. O ritmo agrada e a história prende a atenção do espectador, que começa a entender melhor aquele universo apresentado, juntamente com os personagens. Ao mesmo tempo, o diretor continua errando nos aspectos técnicos do longa, que serão discutidos mais adiante.


Apresentar os humanos que vivem fora de Chicago, no Departamento de Auxílio Genético localizado no aeroporto de O`Hare, enriquece a narrativa. Finalmente o espectador entende o objetivo de isolar a humanidade e a divisão em facções. Toda a história prévia do mundo é contada, como chegaram àquele ponto e quais os planos para o futuro. A estrutura da agência comandada por David já deixa claro como aquela sociedade baseada na pureza genética funciona e quais os desafios que Tris e seus amigos terão à sua frente. O caos que se instala em Chicago após a morte de Jeanine funciona por ser um reflexo do que acontece muitas vezes no mundo real. O vácuo de poder permite que líderes totalitários se sobressaiam e assumam posições importantes na sociedade, criando grupos de oposição, resultando em conflitos armados. É interessante ver como a sociedade de Chicago, antes dividida e controlada em facções, não sabe se organizar e nem ao menos funcionar sem a antiga divisão. A rivalidade entre Evelyn e Johanna é o que gera o senso de urgência necessário para que o núcleo de Tris aja contra o tempo. O treinamento de Quatro e Christina insere na narrativa os drones controláveis, o que aumenta a gama de possibilidades para as sequência de ação, resultando em algumas visualmente interessantes e com um ritmo acelerado. 


David enfatiza diversas vezes que a sociedade americana agora é regida por um Conselho que fica localizado em uma cidade futurista e funcional para aquele cenário pós-apolalítpico. Quando o Conselho é apresentado, parece que o mesmo nada significa, já que a sua influência e seu poder político nunca é mostrado, parecendo mais um órgão figurativo. A atitude de alguns moradores e funcionários da agência dirigida por David soa forçada, parecendo mais um mecanismo de roteiro para facilitar a vida dos personagens principais do que algo crível, pelo motivo que nenhum indício da insatisfação destes moradores e funcionários é mostrado anteriormente. A própria dinâmica destas pessoas dentro da agência é esquisita ao mostrar pessoas andando de um lado para o outro, subindo e descendo escadas, mas não parecendo ir para lugar algum. A obviedade da tatuagem de identificação que os protagonistas recebem ao chegarem na DAG é ofensiva ao espectador. Tris tem o desenho completo, significando que seu DNA é puro e perfeito, já Quatro tem o desenho faltando uma peça, evidenciando sua imperfeição genética. A atitude, ou a burrice, de alguns personagens também é forçada ao fazer com que Tris, por exemplo, passe a confiar mais em David, que acabou de conhecer, do que em Quatro, que é seu namorado. A mesma coisa com Peter, que na sua ânsia de sempre estar por cima dos outros, passa a confiar em pessoas que até o dia anterior ele nem sabia existir. 


A fotografia do filme segue o mesmo padrão dos longas anteriores, mas se sobressai ao ressaltar o deserto vermelho que se tornou o mundo. A sequência em que Tris é inserida no DAG tem um jogo de luzes bonita de acompanhar, em que a nudez da atriz é preservada de maneira elegante. Os efeitos especiais são o ponto fraco dos aspectos técnicos do longa, soando falsos e tirando o espectador do filme no momento em que são mostrados. Há sequências em que o chroma key, ou a famosa tela azul ou verde em que os efeitos especiais são inseridos na pós-produção, é tão evidente que chega a insultar o espectador. O visual externo do DAG é péssimo, primeiro pelos efeitos especiais ruins utilizados e segundo pela estrutura do lugar que não é prática e nem funcional. Para completar, o visual do interior e do exterior não combinam, parecendo lugares diferentes. A montagem é eficiente em manter o ritmo acelerado e o senso de urgência ligados, garantindo o foco total do espectador. A trilha sonora é genérica, pontuando a ação e o suspense de maneira eficiente, mas sem destaque. 


O longa não possui uma grande sequência de ação, que possivelmente deve estar guardada para o último filme, mas as pequenas sequências espalhadas ao longo da narrativa são eficientes e suficientes para que o público compre a ideia do filme. A sequência final, que envolve uma corrida contra o tempo para salvar a população de Chicago, é bem construída e consegue envolver todos os personagens principais com relevância, fazendo com que todos participem de alguma maneira. Alguns dos diálogos são mal escritos, caindo em clichês como ‘Eu não deveria ter confiado em você’ e também ‘Me desculpe. Eu não deveria ter confiado nele’, expondo, através de diálogos, situações óbvias que não precisam ser ditas para serem compreendidas. 


Shailene Woodley continua voluntariosa como sempre em seus longas. A atriz tem potencial e merece uma franquia só para ela. As dúvidas que a personagem tem são críveis e envolvem o espectador. E mesmo seus esforços nas sequências de ação são perceptíveis. Infelizmente sua química com Theo James continua não funcionando, e talvez nunca funcionará. O ator sempre parece meio travado em cena, com dificuldade para interpretar um personagem relevante para a trama. Theo só está na série por ter feito o primeiro longa e ser mais cômodo mantê-lo que trocá-lo, mas é visível, pelo próprio fato do ator não ter tido a sua carreira engrenada depois deste personagem, que ele destoa de outros bons atores em cena. Ansel Elgort está um pouco menos apático que nos longas anteriores, já que seu personagem tem mais o que fazer em Convergente. A verdade é que o ator é bom e promissor, mas o papel de irmão da protagonista que fica em segundo plano é mesmo ingrato. Zoe Kravitz continua apenas eficiente em um papel também sem importância real na história. Miles Teller tem os melhores diálogos do filme e sempre rouba a cena quando aparece. Seu personagem é de longe o mais engraçado da série e sua índole duvidosa cria nuances que enriquece Peter. Jeff Daniels está bem como David, com sua fala controlada e seus objetivos obscuros que já demonstram sentimentos escondidos. Naomi Watts continua não convencendo como a principal líder política e militar de Chicago. A atriz não está confortável no papel e seu cabelo moreno incomoda cada vez que a personagem está em cena, já que a Naomi sempre foi conhecida por ser uma atriz loira. Octavia Spencer continua com pouco tempo de tela, mas a importância de sua personagem cresce neste longa e, pelo andar da narrativa, ainda vai crescer no último filme. 


A Série Divergente – Convergente continua pecando em seus aspectos técnicos, mas ao menos tem um roteiro eficiente ao garantir dinamismo o suficiente para que o espectador compre a ideia do filme, além de ter uma história fechada mesmo fazendo parte de metade de um todo. Deixa o público instigado para saber o que vêm a seguir no último longa que será lançado em 2017. 

NOTA: 7,0

 


INFORMAÇÕES

Título: A Série Divergente – Convergente (The Divergent Series – Allegiant)
Direção: Robert Schwentke
Duração: 121 Minutos 
Lançamento: Março de 2016
Elenco: Shailene Woodley, Theo James, Ansel Elgort, Zoe Kravitz, Miles Teller, Jeff Daniels, Naomi Watts e Octavia Spencer. 





Derek Moraes