Crítica – Alice Através do Espelho

Alice Através do Espelho consegue se sair relativamente bem utilizando-se um fiapo de roteiro para fazer um filme. Assim como seu antecessor, não encanta pela história e pelo desenrolar da narrativa, mas sim por tudo o que está sendo mostrado no filme, que continua com uma qualidade de produção altíssima. Mas não vale usar esta lógica uma terceira vez., por favor.6 min


[SEM SPOILERS]

Sinopse: Para tirar o Chapeleiro (Johnny Depp) de uma crise depressiva, Alice (Mia Wasikowska) precisa voltar no tempo para corrigir um momento crucial da história de seu amigo. O único artefato que permite a viagem no tempo está em posse do próprio Tempo (Sacha Baron Cohen), e Alice terá que enfrentá-lo e sua antiga inimiga a Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter), enquanto conta com a ajuda de seus amigos como a Rainha Branca (Anne Hathaway).

Alice no País das Maravilhas (2010) foi a primeira empreitada da Disney no caminho de adaptar suas famosas animações para o formato live action neste século. Quando os primeiros trailers do filme começaram a ser divulgados uma coisa chamava a atenção acima de tudo: o visual sensacional do longa, marca registrada do sempre caprichoso diretor Tim Burton. Muita gente assistiu ao longa apenas porque aquilo mostrado nos trailers era tão bonito que já valia o ingresso. E o filme rendeu uma fortuna. Em uma época em que passar a barreira do bilhão de dólares arrecadado ainda era um pouco mais difícil, o longa conseguiu US$ 1,03 Bilhão mundialmente e se tornou a segunda maior bilheteria do ano. E de fato o que o filme de 2010 tem de melhor são a sua direção de arte, seus figurinos, suas maquiagens e seus efeitos visuais. A história é apenas mediana, assim como as interpretações e o desenrolar da narrativa. O ritmo é irregular e dá um certo cansaço lá pela metade da projeção. De qualquer maneira, o público nunca se viu tão imerso na País das Maravilhas e nunca pôde apreciar todo o local e sua riqueza de maneira tão intensa como no filme de Tim Burton.

O longa de 2010 precisava de uma continuação? Não. Havia algo na história que rendesse uma continuação? Não. Então porque temos este Alice Através do Espelho? Puro interesse mercadológico. Mesmo baseado em outro livro de Lewis Carroll de mesmo título e publicado em 1871, fica evidente que os roteiristas tiveram que caçar algo no primeiro filme que eventualmente pudesse gerar um segundo filme. O próprio Tim Burton saiu da função de diretor e neste novo filme só participa como produtor. Para a cadeira de diretor James Bobin foi escolhido, tendo conquistado certo respeito nos corredores da Disney após comandar os dois novos longas dos Muppets (2011 e 2014) com grande sucesso principalmente de crítica. Bobin tem aquele pensamento que em time que está ganhando não se mexe, então o que o diretor faz é trazer todo o elenco do filme original de volta e manter o visual deslumbrante. Mas Bobin consegue, também graças ao roteiro, colocar maior dinamismo na narrativa, principalmente utilizando-se das viagens no tempo que possibilitam ao espectador conhecer alguns momentos importantes do passado dos personagens do País das Maravilhas.

O roteiro continua problemático no seu desenvolvimento e nas motivações dos personagens. O fiapo de trama que os roteiristas conseguiram extrair do longa original para fazer esta continuação, no caso o paradeiro dos pais do Chapeleiro, não convence em nenhum momento. Depois de anos e anos, sério que alguém ainda tem esperanças dos personagens estarem vivos? Nunca nenhum motivo foi dado para isso e, sem mais nem menos, o Chapeleiro encontra um objeto que faz suas esperanças, que nunca existiram, voltarem. Toda a trama que se passa fora do País das Maravilhas, do lado de cá do espelho, também não convence. É importante ver que Alice é capitã de seu próprio navio, desbravou o mundo, ficou anos longe de Londres, tem o respeito de sua tripulação e possui uma alma intrépida. Mas toda a trama burocrática envolvendo seu ex-pretendente e sua família aristocrata não interessa a ninguém, ficando evidente que são situações necessárias apenas para criar um conflito entre Alice e sua mãe e mostrar o quanto a personagem é independente e à frente de seu tempo. A maioria dos personagens animados do País das Maravilhas não possui função nenhuma na narrativa, fazendo volume e só aparecendo porque são amigos de Alice e trazem aquele ar de familiaridade que transmite conforto ao espectador. Outra pergunta que também ninguém nunca quis saber a resposta foi o porquê da Rainha Vermelha ter sua cabeça avantajada. Para mim era algo perfeitamente normal em um mundo habitado pelos seres que habitam o País das Maravilhas. Mas o roteiro sente a necessidade de explicar isso e a eterna rivalidade da personagem com a sua irmã, a Rainha Branca. Ao menos, para garantir fluidez à narrativa, a trama do paradeiro dos pais do Chapeleiro se conecta com aquela que explora a juventude das irmãs. É uma conveniência que funciona. Há ainda uma sequência que se passa em um hospício que parece não se encaixar no filme.

As viagens no tempo sempre são mecanismos de roteiro interessantes, que proporcionam inúmeras possibilidades narrativas, trazendo um pouco do imprevisível para a história. Há conceitos muito interessantes utilizados no filme e todos eles relacionados ao personagem Tempo e a tudo o que ele representa. As salas que guardam os relógios dos vivos e dos mortos do País das Maravilhas são interessantes e visualmente criativas, assim como o Mar do Tempo em que pedaços da história do local surgem através das ondas. Os ajudantes do Tempo, os segundos possuem um visual criativo e a possibilidade de se unirem para formarem os minutos e depois as horas é uma ideia muito legal. Alguns conceitos de viagem no tempo são explorados de maneira orgânica, como a impossibilidade de se mudar o passado e um personagem não poder encontrar sua versão mais nova no passado com a possibilidade de efeitos catastróficos ocorrerem. Deixar Alice conduzir praticamente a narrativa sozinha é uma ideia curiosa, já que temos atores coadjuvantes de grande qualidade no elenco, mas funciona, principalmente pelo talento de Mia Wasikowska, e também serve para que a jornada da personagem seja repleta de autoconhecimento. Há um conceito do poder do Tempo que está presente em todo o filme, principalmente através de piadas que, na verdade, são a simples representação do significado do poder do personagem e do que ele representa.

A direção de arte novamente brilha no filme, com destaque para o palácio do Tempo, o Mar do Tempo, o interior do Grande Relógio e o palácio da Rainha Vermelha. São criações tão caprichadas e ricas que o espectador se vê hipnotizado apreciando-as quando estão na telona. A maquiagem e os figurinos continuam excelentes, aumentando o valor de produção do filme. Os efeitos visuais também são eficientes principalmente na criação dos ambientes e na animação orgânica dos personagens animados. A trilha sonora mantém o ar de grandiosidade do primeiro longa e consegue pontuar de maneira eficiente o filme. A montagem é superior ao do longa original, se valendo principalmente das constantes viagens no tempo e as consequentes mudanças de cenários para garantir dinamismo à narrativa, agradando ao espectador que, não tendo uma história interessante para se acompanhar, ao menos sempre tem cenários diferentes para apreciar.

Mia Wasikowska está bem como Alice, colocando energia, compaixão e fidelidade a uma personagem que carrega boa parte da narrativa. Felizmente a carreira da atriz deu uma boa guinada depois do primeiro filme. Johnny Depp aparece como um coadjuvante de luxo nesta continuação. A importância do Chapeleiro foi diminuída, embora seu personagem seja o catalisador da história do filme. De qualquer maneira, o ator consegue captar a atenção do espectador que compra a ideia de um personagem exótico, peculiar, com a língua presa e de um coração enorme, além de possuir uma maquiagem muito impactante visualmente. Helena Bonham Carter continua ótima, colocando um estado de loucura permanente na sua Rainha Vermelha, o que sempre rende bons momentos. Anne Hathaway tem pouco o que fazer além de mexer suas mãos aleatoriamente e ficar com sua cara de paisagem eterna, entregando uma personagem caricata que só funciona no filme por estarmos falando do País das Maravilhas. Sacha Baron Cohen é a única grande adição ao elenco e o ator está muito bem como Tempo, colocando uma aura de poder na sua postura e nas suas falas que enriquece o personagem, ao mesmo tempo em que consegue transmitir vulnerabilidade quando sua rotina metódica sai do controle quando Alice entra no seu palácio.

Alice Através do Espelho consegue se sair relativamente bem utilizando-se um fiapo de roteiro para fazer um filme. Assim como seu antecessor, não encanta pela história e pelo desenrolar da narrativa, mas sim por tudo o que está sendo mostrado no filme, que continua com uma qualidade de produção altíssima. Mas não vale usar esta lógica uma terceira vez, por favor.

NOTA: 7,0

INFORMAÇÕES
Título: Alice Através do Espelho (Alice Through the Looking Glass)
Direção: James Bobin
Duração: 113 Minutos
Lançamento: Maio de 2016
Elenco: Mia Wasikowska, Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Anne Hathaway e Sacha Baron Cohen.


Derek Moraes